segunda-feira, 29 de outubro de 2007

Mais uma vez na Torre Sem Forma

A venda que cegava a aprendiz estava completamente encharcada, não apenas pelo suor que escorria farto de sua testa, como pelas lágrimas que seus olhos não conseguiam mais conter. A sala pareceu mortalmente silenciosa depois do grito que dera, clamando por sua mãe. Muitos anos se passaram desde a morte dela, mas mesmo assim os fantasmas daquela noite a perseguiam. Sahira sentiu seus braços tremerem, perdendo gradativamente a força pelo cansaço, e só então ela percebeu que bloqueava a katana de seu mestre com sua adaga, ao mesmo tempo em que mantinha muito próximo ao pescoço dele as lâminas arremessadas anteriormente em sua direção. A maga deixou as armas caírem no chão, soltando pesadamente os braços, quase ao mesmo tempo em que caiu de joelhos, chorando com mais intensidade.

O som da lâmina japonesa batendo contra o piso de pedra chegou longínquo aos ouvidos dela, e foi esquecido tão logo ela sentiu o abraço protetor de Makaoto, envolvendo-a carinhosamente. O oriental desatou a venda que cobria os olhos da jovem e levantou com cuidado o rosto dela, beijando-a com paixão. Quando Sahira parou de tremer, ele aproximou seus lábios do ouvido dela.

- Parabéns, meu anjo – ele sussurrou acalentador - Completastes teu teste com graça e maestria.

Sahira apenas sorriu antes de recostar a cabeça no peito do mago pela exaustão. Hidan retribuiu o sorriso, afagando-lhe os cabelos enquanto a levantava no colo, também ele mais aliviado com o término do teste. Ao invés de deixá-la em seu quarto, o mago a levou consigo para seus aposentos, preparando-lhe um banho revigorante com infusão de ervas e flores. Seu corpo não sofreria os dolorosos efeitos de tamanho esforço.

Ela saiu um pouco mais desperta da água quente, não estando curada apenas de seu desgaste, mas também os ferimentos que sofrera durante o teste haviam cicatrizado sem deixar marcas. Por um momento a garota sentiu a atenção de Makaoto sobre si, como se ele admirasse séculos de sua beleza apenas com um breve olhar, mas quando se virou, ele já a envolvia com uma toalha, auxiliando-a a sair da banheira e a conduzindo para o quarto.

Como de costume, a aprendiz nem mesmo terminou de se secar. Caminhou até a beirada da cama e deixou a toalha cair aos seus pés, aguardando a aproximação do mago. Ele sorriu, satisfeito com a dedicação demonstrada, mas ao invés de envolvê-la com luxúria, Makaoto ajeitou sobre os ombros delicados de Sahira um kimono leve, de seda azul. A garota ficou confusa, voltando os olhos para seu mestre em sinal de indagação, pois ele apenas a vestia quando não desejava mais sua companhia.

- N-Não compreendo, mestre. Pensei que...

- Deite-se, Sahira – ele disse com tranqüilidade, enquanto preparava uma xícara de chá.

Ela ficou de pé olhando para o kimono. Não sabia se terminava de vestir a roupa e saía, ou se a despia e deitava na cama.

O oriental voltou-se para a jovem e observou, divertido, sua incompreensão. Entregou a bebida à menina, que meneou a cabeça em agradecimento, e a fez sentar na cama, terminando com o dilema, ele mesmo acomodando-se em uma poltrona próxima. Sahira tomou um pequeno gole do chá, fechando os olhos para que o sabor exótico da mistura de ervas fosse mais intenso. Hidan a instruíra dessa forma, e repetia este ritual todas as noites, sempre que se encontrava presente, desde o dia em que levara Sahira consigo para a Torre Ksirafai. Em silêncio, ele observou a criança que, há alguns anos atrás acordava aos gritos todas as noites, assombrada por pesadelos que a faziam reviver seus últimos momentos como Adormecida. A bebida a acalmava, e a certeza de que o mago estaria ao seu lado para protegê-la a permitia dormir tranqüila. Sahira tomou o segundo gole, sentindo a habitual torpeza que o chá induzia, e as lembranças desagradáveis que ainda pairavam em sua mente começaram a se dissipar pouco a pouco. Ela afastou a xícara dos lábios e observou o líquido com seriedade, pousando a louça sobre o criado mudo.

- Vai esfriar – o mago suspirou, cruzando as pernas enquanto a observava – e se não terminares, teus pesadelos retornarão.

- Não quero mais – ela murmurou, encolhendo-se enquanto aguardava a ira do oriental bombardeá-la.

A postura de Makaoto não se alterou.

- Perdão?

- Não quero mais tomar o chá – a aprendiz disse, levantando os olhos para seu mestre com determinação – Não me importo se os pesadelos voltarem. Eles assustavam a criança que eu fui, mas como posso saber se me assustarão agora, se nem mesmo me recordo do que se tratavam?

O mago se levantou e caminhou até ela, fitando-a como quem enxerga sua alma, e então parou diante da menina. Sahira fechou os olhos e prendeu a respiração, aguardando a punição que considerava adequada para sua petulância. Hidan segurou sua mão e a pôs de pé, abraçando-a com carinho enquanto sussurrava em seu ouvido.

- Um aprendiz, por ter menos experiência e sabedoria, deve obedecer ao seu mestre. Assim como o mestre, por ser mais forte, deve sempre proteger seu aprendiz. Se digo que deves tomar o chá e descansar, é porque sei que será o melhor para ti neste momento.

- Não! – ela ajoelhou-se aos pés de Makaoto mantendo a testa colada ao chão - Não me deixe esquecer novamente. Tu mesmo disseste que falsas memórias nunca criaram um espírito verdadeiro. São lembranças tristes, eu sei agora mais do que nunca, mas foram elas que me moldaram da maneira que sou. Que tipo de pessoa vive sem um passado, meu senhor?

O oriental a observou com um suspiro, abaixando-se para tirá-la do chão.

- Vamos, vamos – ele disse, em tom paternal, erguendo o rosto dela para que olhasse em seus olhos – Não achas que estás exagerando um pouco? Sabes muito bem que jamais faria algo para prejudicar-te. Eu te amo, lembra-te disto.

- Perdoe-me, mestre – a menina disse, desviando o olhar, constrangida por duvidar de seu mentor.

Hidan buscou mais uma vez os olhos dela, fitando-a com desejo e paixão. O mago ainda segurava-lhe o queixo quando enlaçou o braço em sua cintura, fazendo com que a jovem sentisse o seu corpo. Sahira fechou um pouco os olhos, e nem mesmo percebeu que seus lábios, agora quase colados aos de Makaoto, estavam entreabertos e sedentos.

- Confia em mim, meu anjo, como sempre confiastes. Quero o teu bem acima de tudo. Acreditas em minhas palavras?

- S-Sim... – ela murmurou, inebriada pelo perfume adocicado da flor de cerejeira.

- Que bom – o oriental sorriu, roçando levemente seus lábios nos dela, provocando-a – Fico muito feliz em saber disto.

O mago finalmente a beijou, saciando a necessidade que ele mesmo criara em sua aprendiz. Aquela carícia fez a menina perder-se entre as memórias que Hidan lhe emprestava naquele instante, ignorando completamente as novas lembranças. Esquecera do seu despertar, esquecera de sua mãe e dos magos amaldiçoados que a torturaram. Esquecera até mesmo de ter recordado disto durante o seu teste. Makaoto afastou levemente seu rosto do dela, externando uma paixão infinita, e Sahira retornou o mesmo olhar, tendo como único foco o semblante do oriental.

- Já está tarde, meu anjo. Vou esquentar teu chá e iremos dormir, já nos divertimos demais para um único dia.

- Sim, mestre – ela respondeu, despindo o kimono por instinto e deitando-se na cama.

Hidan buscou a xícara com o líquido ainda fumegando, pouquíssimo tempo havia se passado desde que entregara a poção a ela. A maga tomou um pequeno gole do chá, fechando os olhos para que o sabor exótico da mistura de ervas fosse mais intenso. Hidan a instruíra dessa forma, e repetia este ritual todas as noites, sempre que se encontrava presente, desde o dia em que levara Sahira consigo para a Torre Ksirafai. Algo naquela ação pareceu-lhe familiar, mas a menina abanou de leve a cabeça, espantando qualquer intenção de memória como se atribuísse essa sensação ao cansaço que a acometia. Makaoto aguardou o sono ser profundo para refazer o selo, e o ritual se prolongou até os primeiros raios de sol adentrarem as cortinas de seus aposentos.

domingo, 28 de outubro de 2007

Fogo Sagrado

“Demonstrastes uma força que jamais me permitiria abandoná-la, meu pequeno anjo”, Sahira ouviu ecoar em sua mente uma voz, poderosa o suficiente para fazê-la estremecer, mas ao mesmo tempo, gentil e amável, reconfortante em seu coração.

Neste instante, ela sentiu que tudo havia cessado ao seu redor. Não havia mais dor, nem som, nem luz. O silêncio era quebrado unicamente por aquela voz, mas a menina não compreendia de onde ela vinha. Sahira sentiu um par de olhos sombrios sobre ela, submersos na mais pura tristeza. Ela sentiu a brisa gélida da morte acariciar seu rosto e um beijo angelical em suas pálpebras.

“Minha força é a tua força, se assim aceitares, meu ser bem amado... E a Fúria do Senhor será tua arma contra os maus e os injustos... Aceitas a Verdade de Deus?”.

- A-aceito... – Sahira murmurou, semiconsciente e ainda sob a tortura do mago, mas seu sofrimento parecia ter chegado a tal ponto, que ela delirava algo que os homens ignoravam.

A escuridão começou a se dissipar diante dos seus olhos, e a menina estendeu a mão direita na direção da luz crescente que agora vinha até ela. Para sua surpresa, seus dedos tocaram outros, cálidos e ternos, e ela sentiu como se houvesse sido atingida por um raio, tamanho o poder que fluiu por todo o seu corpo. Sahira retomou a consciência completa e abriu os olhos e a boca, de onde brotou uma luz de intensidade divina, que momentaneamente cegou os cinco homens, arremessando-os há alguns metros de distância. As estacas de ferro derreteram, e o corpo da menina ficou de pé, ainda na posição da cruz, flutuando alguns centímetros acima do chão. Suas amarras incandesceram, enquanto chamas purificadoras cobriram-na onde estava seu vestido e o sangue que lhe escorria dos ferimentos desenhou uma túnica escarlate ao redor do seu corpo, adquirindo, em uma breve explosão de luz, a textura da mais pura seda, esvoaçando ao sabor do vento que precedeu uma tempestade torrencial, extinguindo toda e qualquer fonte de luz no palacete. Trovões ensurdecedores retumbaram pelos quatro cantos da cidade e os raios crispavam o céu revolto, lançando uma iluminação mórbida e cruel pelas janelas abertas.

Os homens olharam inicialmente aterrorizados para a figura, e foram obrigados a permanecerem de joelhos sob a pressão daquele poder. Seus olhos não conseguiam se desviar do espetáculo diante deles, e então, uma sombra surgiu na frente da menina, enfurecida e rancorosa, fazendo os magi estremeceram diante da promessa de morte.

Sahira finalmente conseguiu enxergar, e mesmo de noite, todas as coisas, todas as cores, os sons e as sensações pareceram-lhe mais vivas. Nem todo o encanto das narrativas de Makaoto poderia descrever o que ela vislumbrava agora, e era simplesmente divino. Diante dela estava ele: o rosto jovem, de traços orientais, envolto por longos cabelos negros e lisos, presos em um elegante rabo de cavalo. Os olhos escuros, serenos e profundos, davam a sensação de uma experiência secular, e seu porte alto e distinto apresentava um equilíbrio perfeito entre jovialidade e conhecimento. O par de asas em suas costas deu à menina a certeza de que era um anjo que estava ali, e a lança em sua mão direita disse-lhe que ela estava diante de Uriel. Sahira sorriu.

O anjo flutuou até as costas dela e envolveu-a carinhosamente em suas asas. A menina sentiu-se abraçada, ao mesmo tempo em que parecia abraçar ao anjo. Ela soube que Ele havia entrado em sua alma, ao mesmo tempo em que ela compartilhava da essência Dele. Sahira encolheu-se no ar, ficando alguns momentos em posição fetal, e quando Uriel abriu suas asas ela saiu, renascendo em uma imagem de poder aterrador. Ela tocou os pés descalços no chão, abrindo em suas costas um par de asas espectral. A túnica adquiriu o tom de um rubi quando ela estendeu o braço direito para frente. Da palma de sua mão surgiu um ponto brilhante, e os guerreiros viram surgir, como se nascesse do braço dela, uma lança de ponta aguda e afiada. Possuía mais de três metros, mas mesmo empunhada por mãos tão pequenas, não parecia menos mortal. Eles se levantaram e desembainharam suas espadas assim que se sentiram no comando de seus corpos novamente.

- Eu sou a Portadora da Chama de Deus... – ela declarou, e sua voz agora se mesclava à do Anjo – o Arauto da Presença Divina... O Profeta da Salvação...

Os homens entreolharam-se, e aquele que parecia liderá-los sorriu com desdém e desferiu o primeiro golpe.

- Serás a Portadora da Morte Imediata em breves momentos, bruxa amaldiçoada!

A lâmina brilhou em seu arco ascendente, embalada pela força descomunal do guerreiro que a empunhava, mas Sahira apenas fechou os olhos em uma piedade impessoal, e Uriel estendeu sua asa diante dela, ao mesmo tempo em que a garota levou o braço diante do rosto, bloqueando completamente o golpe que seria fatal. Os outros cavaleiros logo acompanharam o ataque do seu líder, inflamando suas espadas com um fogo avermelhado e demoníaco, murmurando preces hereges aos ouvidos da menina. Sahira apertou os dedos ao redor do cabo da lança, empunhando-a também com a outra mão, e abriu os olhos, fitando com frieza o segundo mago que avançou para atacá-la. Com um movimento rápido a lâmina da lança cortou o ar, tingindo a parede com uma mancha vermelho-sangue, antes mesmo de tocar seu alvo. O guerreiro perdeu o controle de suas pernas e levou imediatamente a mão esquerda até a cintura, agora com um corte fino e preciso, segundos antes de tombar com estrondo, dividido ao meio. Segurando com mais firmeza suas espadas, os magi avançaram em conjunto contra a menina, formando uma força de ataque bastante superior à inicial.

- Sim... A Portadora da Fúria do Senhor... – ela respondeu finalmente, assumindo uma posição neutra.

Sahira aguardou a aproximação dos homens, rebatendo seus golpes com movimentos graciosos de corpo e lança. A dança mortal que a menina conduzia vez por outra se confundia com a forma aterradora do Arcanjo. Uriel sussurrava orações em seu ouvido, em uma língua que não era daquele mundo, e a cada pausa dada, Sahira desferia mais um golpe, e o sangue de seus inimigos espirravam ao seu redor. Apesar de parecer completamente fora de si, e em seu íntimo desejar profundamente devolver toda a dor causada a sua família, poucos ataques foram mortais, poucos foram os cortes letais, como se algo a impedisse de ir além e bloqueasse, ainda que minimamente, seu desejo por morte. Um a um, os cavaleiros foram caindo ao chão, com lacerações profundas nos braços e pernas, praticamente incapazes de se levantarem. O contra-ataque resumia-se unicamente à defesa, pois não havia mais nada que pudessem fazer.

O anjo estendeu sua asa sobre o braço da menina e a lança desapareceu sob suas penas. Ela caminhou, quase deslizando, até o líder de seus oponentes e ajoelhou-se com um ar piedoso em seu semblante.

- Pobre homem... Tua existência maldita, que punição cruel! – ela sussurrou, a voz infantil encorpada e destoada pela sombra de Uriel.

Ela acariciou o rosto ensangüentado do cavaleiro, e do líquido que manchou seus dedos, ela forjou uma adaga, semelhante à arma que ele mesmo utilizara para ferir seu corpo anteriormente, mas com o matiz escarlate da sua vida. A menina deslizou a lâmina do rosto até o pescoço do homem, que nada fez além de observá-la com frieza e determinação.

- Cumpra tua jornada, feiticeira... – ele resmungou, a voz misturada ao sangue que se acumulava em sua boca.

- Mostrarei toda a minha piedade... Acabarei com toda a dor... Dar-te-ei a paz!

Sahira levantou o braço e as plumas alvas das asas do anjo acompanharam o seu gesto, tornando-se negras tão logo ela conduziu a adaga na direção da carne desprotegida do mago. O movimento era certo e mortal, mas antes mesmo que a ponta da arma tocasse o pescoço do homem, o som do metal ecoou no mármore e a menina segurou a mão que portava a adaga contra o peito, confusa e desnorteada.

- Chega de mortes por hoje - a voz conhecida do oriental chegou aos ouvidos dela suavemente - Uma criança do teu tamanho já viu desgraças para uma vida inteira, meu anjo... Não permitirei que te acostumes tão cedo com o cheiro do sangue.

A pequena maga voltou seus olhos para a entrada do palacete e sorriu, praticamente ignorando as palavras que Makaoto pronunciava. Tudo o que Sahira via, era seu anjo protegendo-a de todas as formas. Era Ele, às suas costas, que emprestava a ela força e coragem. E era Ele, à sua frente, que trazia o Juízo Final aos pecadores.

O mago aproximou-se da menina, mas não o suficiente para tocá-la. A presença do Arcanjo era poderosa, e o olhar desconfiado que ele lançou ao oriental o fez reconsiderar suas ações. Makaoto observou aquela expressão do avatar de Sahira e colocou-se entre a garota e o homem que ela estava prestes a matar. Ele sacou a lâmina oriental de sua bainha e saciou o desejo de sangue de Uriel, cravando a ponta da espada no coração do oponente de Sahira. O Anjo fechou os olhos, parecendo satisfeito, ao mesmo tempo em que ela também fechou os seus, desacordada, e apenas não desabou porque o mago a segurou antes. A tempestade que açoitara Constantinopla até então, abrandou, e tudo o que restou foi o lamento da garoa que permaneceu em seu lugar.

sábado, 27 de outubro de 2007

Infância Interrompida - Epílogo

Sahira piscou uma, duas, três vezes, e ainda assim, seus olhos continuavam ardendo com a luminosidade súbita. A menina esfregou o pulso direito, sobre o qual havia caído, enquanto observava ao seu redor tentando reconhecer o local onde estava. Seus olhos bicolores logo se familiarizaram com a sala de sua casa e, por um breve momento, Sahira esboçou um sorriso aliviado, levando ambas as mãos ao próprio peito em sinal de tranqüilidade.

- Finalmente chegastes para a festa, huh? – uma voz rouca chegou áspera em seus ouvidos, acompanhada pelo som de passos decididos e armadurados – Então... Tu és a donzela entre os cavaleiros do apocalipse...

A garota levantou os olhos, estendendo a palma da mão direita sobre eles para conseguir enxergar, mas não venceu a intensidade da luz antes que seu pulso fosse agarrado firmemente, elevando-a dolorosamente do chão. Os olhos claros do homem pareciam não apenas examiná-la fisicamente, eles vasculhavam sua essência de forma tão descarada e invasiva que Sahira enlaçou o braço livre ao redor do corpo e virou o rosto para o lado, constrangida demais para encará-lo.

- Imaginava-a mais velha, donzela... – ele sussurrou, segurando o queixo da menina enquanto a analisava de perto com um sorriso debochado nos lábios – e bem menos inocente, sendo uma bruxa...

- B-Bruxa...? – Sahira murmurou, fazendo uma careta ao sentir o aperto dos dedos do homem em seu rosto.

- Bruxa... – ele confirmou sombriamente, fazendo-a olhar ao seu redor.

Dezenas de corpos estavam espalhados pelo chão, alguns mutilados por lâminas bastante afiadas, outros com as roupas chamuscadas ao redor de queimaduras gigantescas. A garota contou quatro acompanhantes do homem que a segurava agora. Dois deles caminhavam pela sala, com as espadas em punho, atravessando a garganta dos que ainda se contorciam agonizantes, e executando o sinal da cruz ao final de cada morte. Os outros dois estavam ao redor de sua mãe, mas ela não conseguia entender o que faziam com ela. Mesmo deitada, com os cavaleiros sobre ela, a baronesa não emitia som algum, exceto por um gemido cansado de dor quando algum deles desferia um sonoro tapa em seu rosto.

- Mãe! – Sahira gritou, esquecendo-se de sua própria condição, e debateu-se com tamanha violência que o homem esmurrou-lhe o estômago para contê-la – Uhng! M-Mãe...

- Cala-te, feiticeira amaldiçoada! – ele vociferou, chacoalhando-a no ar, ainda suspensa pelo pulso que começava a emitir estalidos lancinantes e voltou-se para aqueles que terminavam de matar os moribundos – Prendam-na! Vamos executar o exorcismo.

-M-Mãe... – ela choramingou, voltando seu rosto para procurar sua progenitora, sentindo fortes náuseas pelo soco e pelo odor intenso de sangue.

O cavaleiro jogou-a no chão, fazendo com que ela ofegasse ao bater as costas na parede, contorcendo-se com a dor do impacto. Os outros homens imediatamente a contiveram, atando seus pulsos e tornozelos em estacas de ferro presas ao chão em forma de cruz, e afastaram-se em seguida. O mago desenhou um círculo de sal ao redor dela, e adentrou, abaixando-se ao seu lado e desembainhando uma pequena adaga de metal negro. Os olhos de Sahira arregalaram-se, cada vez mais submersos em lágrimas, e o seu suor exalava uma mistura do aroma de sândalo com o odor exótico do medo.

- Pelo bom Deus, senhor... – ela murmurou, trêmula e desesperada - Tenha piedade... D-Deixem-nos em paz...

- Esta é a maior piedade que os guerreiros do Senhor podem demonstrar, donzela – ele chiou, cortando a frente do vestido dela, desnudando-lhe os ombros e o colo – Se fores purificada, Ele a perdoará de teus pecados e permitirá tua entrada no Paraíso...

A menina fechou os olhos, cerrando os dentes com força ao sentir a lâmina fria próxima do seu corpo. Os cavaleiros restantes aproximaram-se, posicionando-se cuidadosamente ao redor deles, enquanto entoavam cânticos em latim e a ponta afiada da adaga encostou em sua pele, provocando o primeiro corte, torturantemente lento e profundo. Sahira gritou, e a expressão de sua dor ecoou por todo o palacete. A senhora Leniath abriu um pouco os olhos inchados pelas lágrimas e contusões, e murmurou o nome da filha com dificuldade, mas foi imediatamente retaliada com um novo pontapé em suas costelas.

- Não! – a menina chorou desesperada, mas seu protesto terminou em um novo urro de dor quando o cavaleiro encravou-lhe um segundo corte em seu colo.

Filetes de sangue já escorriam por seus ombros, formando no chão uma pequena poça cor de vinho. Um pouco dele tocou o relicário no pescoço de Sahira e fez a garota recordar-se das palavras de Hidan. Em meio ao seu sofrimento, ela voltou-se imediatamente para Uriel, abrindo os olhos com dificuldade e elevando uma súplica aos céus.

- Tsadkiel, Elohim Divino – ela murmurou, com os dentes cerrados para suportar a dor excruciante dos ferimentos - Que organiza as forças do mundo, para melhor fluir com toda a vossa capacidade de energia...

- Sim, ore, feiticeira! – riu o homem, entalhando mais um símbolo logo abaixo do pescoço dela – Talvez o Uno tenha alguma piedade da tua pobre alma...

- ...E-em vossa eterna regência vinde a mim... Para abençoar-me com a verdade e tolerância e a capacidade de distinguir, a-avaliar e... Discernir. Amado príncipe Tsadkiel, peço gentilmente a vossa clemência... Para todas as pessoas de bem...

Sahira tinha as mãos dormentes, resultado de as manter fechadas para suportar a dor. Os cortes ardiam como fogo e ela nem mesmo conseguia respirar direito, porque qualquer movimento dava-lhe a sensação de que seu corpo inteiro rasgaria.

- ...Nunca me deixe frágil contra meus inimigos... E... E que eu possa suportar tudo com dignidade... – ela balbuciou, já perdendo o foco das imagens ao seu redor e começando a sentir seu corpo entorpecido – Tsadkiel... B-bondade... Justiça e sublimação... Agora e sempre... Amém...

sexta-feira, 26 de outubro de 2007

Infância Interrompida - Interlúdio

- Mãe! – Sahira gritou, ajoelhando-se assustada no gramado do jardim, deixando algumas lágrimas escorrerem grossas pelo seu rosto.

- Foi apenas um sonho, Sahira – Makaoto tentou consolá-la num misto de carinho e preocupação, abraçando-a protetoramente.

- Não! – ela gritou. debatendo-se, desmanchando o arranjo de seus cabelos e quase destruindo seu vestido – Minha mãe precisa de ajuda!

Hidan levantou-se e observou-a, sério, percebendo que talvez não conseguisse manter o controle sobre ela por muito mais tempo. O oriental já tinha conhecimento do potencial místiko daquela menina, e sabia que era uma questão de tempo até que ele se revelasse completamente. Mas ele realmente não esperava – ou mais corretamente, não desejava – que este fosse um dos dias em que o poder de Sahira viesse a se manifestar.

- Sahira - ele segurou os pulsos dela com firmeza, chamando-a para trazê-la à razão, ou, pelo menos, para conseguir sua atenção – Olha para mim! Tivestes um sonho ruim, nada mais. Ouvistes?

A menina calou-se imediatamente, fitando Makaoto com os olhos arregalados de alguém que fora severamente repreendido. O oriental suspirou, aliviando não apenas sua própria expressão, como o aperto que mantinha nos braços dela, acariciando-lhe ternamente o rosto úmido pelas lágrimas.

- Apenas um sonho, meu anjo... Nada mais... – ele sussurrou no ouvido dela, tentando convencê-la a ignorar o que vira.

Hidan ajoelhou-se diante da criança, e segurou-lhe ambas as mãos para trazê-la mais perto de si, desejando envolvê-la em um abraço reconfortante.

- Fique comigo, Sahira... E eu a protegerei de todo o mal.

- Não posso... Perdoe-me... – ela murmurou, desaparecendo no ar.

Makaoto ficou desorientado por alguns instantes, mas colocou rapidamente seus pensamentos no lugar. O oriental fechou os olhos e murmurou uma prece, puxando em seguida uma adaga finamente trabalhada, que trazia em sua lâmina afiada escritas esotéricas, os nomes verdadeiros de Deus. O mago se concentrou e iniciou seu ritual.

quinta-feira, 25 de outubro de 2007

Uninvited

A serviçal correu esbaforida até a porta principal, ajeitando-se discretamente antes de atender às insistentes batidas que pareciam querer derrubar a casa inteira. O barão e a baronesa lançaram-lhe olhares irritadiços e urgentes quando ela passou por eles, e não apenas os donos da casa pareciam intrigados com a violência dos visitantes, como todos os convidados trocavam olhares significativos e murmuravam horrorizados com a deselegância dos recém chegados.

- Pois não, senhores? – ela questionou, contendo um certo assombro ao ver as cinco figuras envoltas em luxuosos mantos vermelhos nas escadarias do palacete – O senhor barão está dando uma festa no momento, os senhores teriam algum assunto...

A mulher não teve tempo de terminar sua frase antes de cair de joelhos no chão, seu ventre fulminado por uma rajada de luz branca e brilhante que saíra das palmas da mão do cavaleiro mais próximo da porta. Os homens adentraram a mansão, retirando de debaixo dos mantos longas espadas de prata abençoada, alguns se ajoelhando por um instante, outros apenas cantarolando louvores a uma Unidade que lembrava vagamente a Deus, mas que ainda assim, aterrorizou os corações Adormecidos. Aquele que estava em meio aos cinco esticou um pouco mais os lábios já finos e pálidos ao encontrar à senhora Assiath entre os presentes. Os pequenos olhos verdes, gélidos como a morte, pareciam atravessá-la em busca da sua alma, enquanto os pés protegidos por uma armadura pesada adiantavam-se para ela em uma súbita necessidade.

- Tu, mulher! Onde está a bruxa da tua filha? – o homem questionou com a voz rouca e inexpressiva, exalando um odor forte de enxofre enquanto vomitava suas palavras.

- B-Bruxa...? – a baronesa balbuciou, incapaz de desviar os olhos das fendas serpentinas que a hipnotizavam.

O homem estreitou mais os olhos, fitando à senhora como se pudesse trucidá-la apenas com a sua vontade. A mulher permaneceu amedrontada até o momento em que sentiu o ar faltar-lhe, pela pressão de uma mão invisível em seu pescoço.

- Isto é uma festa, não é mesmo? – ele disse, segurando-a pelo braço e arremessando-a impiedosamente ao chão, avançando sobre ela em seguida – Vamos nos divertir enquanto tua pequena travessa não retorna...

- Parem – implorou o barão, que olhava impotente para as espadas flamejantes que aqueles estranhos homens empunhavam – O que querem com Sahira? O que fez minha filha?

- Sahira... – o cavaleiro espalmou a mão sobre o peito de Leniath, segurando-a firmemente no chão enquanto fitava o marido dela – Então este é o nome da pequena? Tudo ficou mais fácil agora... Matem-no!

Um Presente Especial

Os convidados começavam a dispensar a mesa do banquete para dirigirem-se ao salão de festas, sob a tutela cuidadosa da baronesa. Sahira permanecia sentada à esquerda de seu pai, aguardando até que o último dos presente se levantasse. O olhar do barão recaiu por alguns instantes sobre a filha e ele sorriu. A menina estava simplesmente divina no vestido de pura seda azul, os cabelos lisos e acobreados presos em um arranjo que emprestava uma expressão madura ao rosto infantil, e os olhos, um verde e o outro castanho, exalavam uma excentricidade quase sedutora para seus sete anos. O senhor Assiath estava satisfeito. Com o dote apresentado e o título de baronesa, certamente muitos homens se interessariam por Sahira. Mas aquela beleza rebelde arrebataria o coração até mesmo do mais mesquinho entre eles. O futuro de sua filha estava assegurado, sem sombra de dúvidas.

- Vamos? – ele a interrompeu de seu tédio, estendendo-lhe a mão para que ela se levantasse e seguisse para o salão – Estão todos dançando, é a tua vez de aparecer.

- Sim, papai – a garota respondeu automaticamente, apenas mantendo o tom respeitoso que deveria apresentar.

Sahira adentrou o salão atraindo para si praticamente toda a atenção da festa. O barão não errara ao supor que sua filha se destacaria facilmente, e até mesmo alguns senhores bem casados dardejaram olhares de cobiça na direção da menina. Ela curvou-se em um agradecimento silencioso e dirigiu-se para uma poltrona preparada especialmente para ela durante a festa. Sahira não estava apenas entediada, estava aborrecida e saudosa. Diversos jovens aproximaram-se dela durante a noite, não sem deparar-se com os olhares protetores, de sua mãe, e avaliadores, de seu pai. Ela os dispensaria a todos, se pudesse, mas a honra de sua família e a certeza de que estaria condenada a manter sua verdadeira paixão oculta, a fizeram tolerar todos os inúmeros pretendentes arranjados por seu pai.

Um garoto de não mais que doze anos encontrava-se diante dela. O rosto fino, talvez até demais, ficava escondido sob mechas lisas e grossas de um cabelo negro comprido. As roupas empoladas ficavam desalinhadas em seu corpo mirrado, que parecia não sustentar tantas rendas e babados em uma só camisa. A voz ainda fina, trazia uma sonoridade monótona e a menina já começava a cabecear quando sua atenção voltou-se para uma sombra mais escura por trás da leve cortina translúcida que esvoaçava diante da sacada.

Uma curiosidade infantil apoderou-se dela, obrigando-a ignorar cada palavra proferida por seu interlocutor. Esqueceu completamente da etiqueta e praticamente desdenhou do castigo que receberia caso seus pais percebessem o tom ácido de suas palavras para com aquele que, até o momento, era seu melhor pretendente.

- Não há novidade alguma nas viagens para as Índias, senhor Caio – ela sussurrou, interrompendo aquela narrativa que vinha sendo considerada a grande epopéia da corte de Constantinopla até então, fez o rosto pálido e macilento do jovem corar de raiva e vergonha – Muitos já foram os relatos sobre as Índias, e todos soaram infinitamente mais graciosos que o vosso. Além do mais, qual a honra em se gabar de combates que apenas vistes por trás das escotilhas de um navio? Muito heróico, meu bom senhor.

Caio levantou-se, como se houvesse sentado sobre espinhos, ferido no orgulho que construíra para si. Levantou os braços, pronto para esbravejar impropérios contra Sahira, quando ela pareceu pálida e amedrontada, pronta para desfalecer. Percebendo todos os olhares sobre si, o jovem mudou completamente de atitude, segurando cordialmente a pequena mão e tomando o leque de seu colo para abaná-la e trazer-lhe de volta à consciência.

- Senhorita Sahira, por favor, fique conosco! – ele a chamava.

- Senhor Caio... – a menina abriu lentamente os olhos, dissimulada – Pelo bom Deus, obrigada. Com vossa licença, senhor.

A menina levantou-se, sem nem ao menos olhar para o garoto, abrindo o leque de rendas e abanando-se com graça enquanto caminhava até a sacada, fingindo a necessidade de ar puro. Ela atravessou a cortina e os olhos brilhantes vasculharam o balcão, buscando a figura que lhe atraíra até ali, mas logo se conformou, com um profundo suspiro, de que Makaoto realmente não apareceria. Sahira debruçou-se no parapeito da sacada, pousando o olhar vago no horizonte, tentando divisar a silhueta dos navios contra a luz da lua nascente. Uma leve brisa carregou algumas mechas do cabelo da menina, e ela esfregou os braços enluvados com o frio repentino.

- Quanta crueldade – Sahira ouviu às suas costas, enquanto sentia o calor e o perfume de cerejeira da casaca que era ajeitada em seus ombros – O pobre garoto talvez nunca se recupere de uma recusa como esta.

- A culpa é toda vossa – ela respondeu com atrevimento, sorrindo francamente, mas sem olhar para trás – Se houvesses adentrado pela porta da frente, seria meu dever recebê-lo, senhor Hidan, e o garoto que contasse suas mentiras para outra pessoa.

- Venho prestigiá-la e recebes-me com uma acusação? – Makaoto fingiu desapontamento, testando a menina – Talvez seja melhor eu deixá-la em paz e partir, pois vejo que teus humores estão bem flutuantes esta noite.

- Não! – ela segurou a mão que ele deixara em seu ombro, virando-se aflita para o oriental – Por favor, não vá! Estive... A noite inteira esperando que aparecesses, senhor Hidan.

Makaoto sorriu satisfeito, pousando o indicador sobre os lábios maquiados de Sahira em um pedido provocante de silêncio. A garota corou, sentindo seu coração disparar intensamente com aquele toque, mas nem mesmo com todo o constrangimento ao qual era submetida, ela conseguia desviar os olhos dele.

- Eu vim por aqui – ele sussurrou apontando a sacada – porque gostaria de levá-la comigo para um passeio. Mas como tenho certeza que a senhora baronesa não aprovará que eu leve a anfitriã da festa, tive que ser um tanto furtivo. Acompanharias-me?

Sahira meneou a cabeça afirmativamente, naturalmente propensa a aceitar qualquer pedido daquele homem que tanto a fascinava. Makaoto cruzou o parapeito e segurou-se nas grades que sustentavam belos exemplares de trepadeiras, estendendo a mão para que a menina o acompanhasse. Abraçando-a com firmeza, ele desceu silenciosamente e a conduziu até a carruagem que o aguardava.

- Feliz aniversário, meu anjo – ele a congratulou quando o veículo já estava longe do palacete, adentrando uma alameda – E felizes sejam teus próximos sete, e outros sete mais.

A garota agradeceu o cumprimento, apesar de julgar desnecessário qualquer protocolo social diante de Makaoto. A simples presença do oriental já era uma gratificação soberba para seus desejos infantis. A carruagem parou e Hidan desceu, abrindo a porta dela e auxiliando-a a sair, apresentando um jardim de beleza inestimável.

- Pelo bom Deus, senhor Hidan! É simplesmente lindo!

- Imaginei que apreciarias – ele respondeu, esboçando um sorriso sincero ao perceber a empolgação de Sahira – É o meu presente para ti.

- É um passeio maravilhoso, senhor! Nunca receberia um presente tão especial como este.

- Não, Sahira. Não é o passeio que é o presente, mas o jardim. Para que possas refugiar-te quando desejares um pouco de paz.

Os olhos da menina fixaram-se quase incrédulos nos do oriental, como se aguardassem o anúncio de uma brincadeira. Mas Makaoto apenas sentou-se no gramado diante do lago, convidando-a a se aproximar. Tendo-a ao seu lado, Hidan ajeitou uma flor em seus cabelos, acariciando levemente seu rosto enquanto murmurava palavras desconhecidas para ela. Disfarçando sua curiosidade com um tom casual, ele a questionou:

- Por que desdenhastes tanto da história que o garoto Caio contou-te?

- Ainda guardo lembranças das narrativas de vossas viagens, senhor – ela respondeu, sonolenta - e o relato simplista e egocêntrico do senhor Caio começava a tingir de cinza as imagens tão vívidas que me passastes.

Ele a abraçou protetoramente, deixando-a recostar a cabeça em seu braço para descansar por alguns minutos.

- Durma, minha pequena Sahira – Hidan sussurrou enquanto iniciava uma tecelagem de Tempo – Porque tens ao meu lado, todo o tempo de que precisares para um descanso tranqüilo.

A menina adormeceu rapidamente, exausta pela noite agitada demais para os seus recém completos sete anos e também pela magia do oriental. Makaoto observou-a com seriedade, franzindo as sobrancelhas enquanto acariciava o cabelo dela.

- Pobre menina – ele disse, beijando-lhe a testa com pesar – Mas é um mal necessário. Um dia, talvez, me perdoes.

quarta-feira, 24 de outubro de 2007

De Volta à Torre Sem Forma

O odor acre do chá verde e do pó sobre os pergaminhos seculares misturou-se ao perfume doce de cerejeira, invadindo as narinas da jovem e desnorteando-a por alguns instantes. A aprendiz apertou um pouco os olhos sob a venda, enquanto as linhas que a guiavam para os tambores misturavam-se e bipartiam-se em diversas outras, confundindo-a. Ela estacou por alguns instantes, abanando a cabeça para compreender onde errara. Talvez a pronúncia errada do nome de algum Querubim. Cada vez mais traços surgiam onde as conchas eram arremessadas, e a garota precisava descobrir rapidamente qual era o traçado inicial correto. Arriscou um deles e tocou, indecisa, o tambor, não muito segura de que fizera a melhor escolha, retornando em seguida para o centro. Alguns segundos se passaram até que a jovem se considerasse correta, pois Hidan não havia questionado sua opção. Ela preparava-se para seguir até o próximo tambor, quando sentiu a lâmina fria da katana em seu pescoço, acompanhada de um abraçado ousado, finalizado em uma carícia em sua cintura. O mago inspirou lenta e profundamente, inebriando-se com o perfume de sândalo que exalava do corpo da jovem, ainda mais forte em função do calor dos movimentos constantes.

- Reinicie a seqüência – ele sussurrou sedutoramente - Errastes.

- Sim, mestre – ela suspirou conformada com a ordem dada, mas profundamente irritada por ter falhado.

A aprendiz sentiu que o mago se afastara, e assim que ela compreendera a ordem, recomeçou aquela seqüência. Desta vez as conchas voaram rápidas, sem nenhum padrão como anteriormente, fazendo-a praticamente deslizar de um lado a outro da sala para tocar os tambores quase simultaneamente. Ela retomou a concentração inicial, murmurando preces e buscando a força de seu anjo protetor. Ele respondeu, e uma vez mais seus movimentos eram fluidos e graciosos, até ela obrigar-se a desviar de uma linha diferente das outras. O traçado firme e de uma coloração vermelho sangue contrastava muito com a tênue fumaça esbranquiçada que seguia o curso das conchas, e a jovem sentiu não apenas a movimentação do ar, mas também o leve corte em seu rosto, no momento em que a pequena lâmina cruzou a sua frente. Uma gota de suor frio escorreu da sua testa até a venda e a preocupação a fez sentir a sala toda no mesmo instante, agora que compreendera que seu mestre não a colocara somente em um teste de habilidades, mas em uma corrida por sua própria sobrevivência. A quinta concha daquela seqüência atingiu o alvo e a aprendiz já desviara a décima lâmina em seu caminho.

terça-feira, 23 de outubro de 2007

Infância Interrompida - Prólogo

- Sahira? – a voz de sua mãe alcançou-a através dos corredores do palacete quando a senhora abriu a porta da sala de estudos – Sahira, tens uma visita.

A menina parou imediatamente seus exercícios de dança, sorrindo animada ao ver o homem que adentrava a sala junto com sua mãe, precedido pelo suave perfume da flor de cerejeira. O rosto jovem, de traços orientais, era envolto por longos cabelos negros e lisos, presos em um elegante rabo de cavalo. Os olhos escuros, serenos e profundos, davam a quem quer que os observasse, a sensação de uma experiência secular, e seu porte alto e distinto apresentava um equilíbrio perfeito entre jovialidade e conhecimento. Sahira não conseguiu evitar a admiração descarada ao fitá-lo, ainda mais vestindo aqueles trajes exóticos que lhe caíam tão bem. Curvou-se com graciosidade para sua pouca idade e avançou alguns passos até ele.


- Senhor Hidan! Veio à Constantinopla a trabalho ou para presenciar meu aniversário?


- Vim a trabalho, senhorita – Makaoto ajoelhou-se diante dela, ficando assim mais próximo de sua altura enquanto beijava-lhe educadamente a mão – mas se for convidado, ficarei muito honrado em aparecer. Quando será o baile?


- Daqui a dois dias, senhor – ela respondeu, lançando um olhar intrigado para sua mãe – Pensei que a senhora houvesse enviado um convite para ele, mamãe...
A baronesa inclinou levemente a cabeça, erguendo os ombros em sinal de incompreensão.

- Talvez... – ele respondeu, disfarçando um certo desconforto com a informação – apenas não tenha chegado ainda, meu anjo. E o que a jovem dama irá querer de presente?


Sahira permaneceu algum tempo pensativa, considerando o que poderia pedir. Finalmente, abrindo um novo sorriso, ela declarou:

- Uma dança, senhor Hidan. Quero que sejas meu acompanhante no baile.
O oriental levantou as sobrancelhas, divertido com a ousadia da menina, enquanto a senhora Leniath levou as mãos diante da boca, horrorizada.

- Sahira, minha filha! Não...


- Uma dança? – Makaoto questionou, erguendo a mão para a baronesa em sinal de descaso, enquanto observava Sahira com interesse.


- Sim, uma dança. Como a que o senhor teve com a senhorita Ângela, no dia de minha apresentação.


Hidan colocou-se de pé, e a seriedade com a qual olhou para a menina a fez considerá-lo muito mais alto do que ele já era.


- Como a que tive com Ângela, Sahira? – ele se aproximou mais dela, fitando-a sedutoramente e arrancando um gritinho da senhora pela intimidade com a qual tratou sua filha.


- E-exatamente, senhor Hidan – ela respondeu com um fio de voz, mas ainda sustentava o olhar do oriental.


- Senhora Leniath – Makaoto levantou-se, segurando a mão da baronesa e beijando-a cordialmente, enquanto mantinha os olhos negros fixos nos da mãe de Sahira, prendendo sua atenção de forma sobrenatural – gostaria de ter uma conversa com sua filha. Acredito que alguns conceitos da minha terra natal possam ajudá-la a tornar-se uma jovem bastante virtuosa.


A senhora assentiu com um meneio de cabeça vago, como se houvesse esquecido completamente os minutos anteriores, e abananou para que o professor a acompanhasse, deixando Hidan e Sahira a sós. Assim que os dois fecharam a porta, Makaoto aproximou-se um pouco mais da menina, curvando-se elegantemente ao convidá-la para uma dança.

- Dar-me-ia a honra, senhorita?


- Mas não há música alguma aqui – ela comentou com um sorriso divertido sem, no entanto, recusar o convite.


- E não é mesmo? – Hidan sussurrou enquanto a segurava no colo para que ela o alcançasse – Permita-me então a honra de bailar ao som do teu sorriso.


- Por que estamos fazendo isso agora, senhor Hidan? Meu aniversário é só daqui a dois dias...


- Porque é possível que eu não possa comparecer, meu anjo. Não recebi o convite a tempo e marquei outros compromissos para estes dias. Vim vê-la hoje, pois é minha única tarde livre.


Sahira desviou os olhos de Makaoto, entristecida pela notícia. O longo cabelo acobreado escorregou pelo seu pescoço e revelou uma delicada correntinha de prata com um relicário de Uriel como pingente.


- Não são comuns os devotos de um anjo como este.


- Foi um presente de minha mãe – ela comentou vagamente, saindo por um instante do vazio em que se colocara – O Anjo do Arrependimento e da Salvação. Ela disse-me que, se eu for fervorosamente devota a Ele, então estarei livre do Inferno para sempre.

- Um ótimo motivo – Makaoto murmurou, tocando levemente o relicário e fazendo a menina corar – e também o melhor anjo a se recorrer nos momentos de desespero...


- Não poderá mesmo vir ao meu aniversário, senhor Hidan? – ela o interrompeu, sem coragem de olhá-lo nos olhos, mas seus pequenos dedos tocaram a mão do oriental enquanto ela buscava seu relicário, julgando uma boa hora para recorrer a Uriel – Meu pai permitirá que me cortejem durante o baile...


Makaoto parou de conduzir a dança por alguns segundos, observando profundamente a menina. Finalmente sorriu, um sorriso discreto e levemente oblíquo e vitorioso, retomando os passos enquanto tocava o rosto de Sahira, fazendo-a olhar para ele.


- Pensei que ficarias feliz com isso. As meninas da tua idade costumam apreciar a corte.


- Ficaria, senhor... Se eu possuísse qualquer intenção de casar-me com pretendentes que nem mesmo conheço – ela respondeu, fixando-lhe os olhos bicolores com uma determinação bastante madura.


- Tão jovem... E com um espírito tão livre – Makaoto divagou, cada vez mais impressionado – Deves ser o desespero de teus pais, meu anjo! Se não fosses tão nova, eu mesmo a cortejaria, nem que fosse unicamente para ouvir tua recusa.


Sahira sorriu ao ouvir o comentário, enquanto Hidan a colocava de volta no chão, fazendo-a girar uma última vez em seu próprio eixo e ajoelhando-se novamente para acompanhar-lhe a altura.


- Não recusaria... – ela murmurou inaudivelmente, ruborizando em apenas imaginar que Makaoto pudesse tê-la ouvido.


- Perdão? – Hidan disfarçou com um sorriso bastante discreto o seu conhecimento das palavras da menina.


- Ah! Somente disse que é uma pena... O senhor sabe que aprecio muito vossa companhia, será uma festa entediante sem a vossa presença.


- Por certo que não será, minha pequena Sahira – Makaoto segurou gentilmente o queixo dela e beijou ligeiramente os lábios infantis, atordoando-a – É o
teu aniversário, e com uma anfitriã tão graciosa, os Céus não permitirão que aconteça nada que a aborreça neste dia. Vamos sair? A senhora Leniath deve estar nos esperando na sala de estar, e mais um pouco ela poderá pensar que os métodos de ensino japoneses não sejam exatamente adequados para sua filha...

segunda-feira, 22 de outubro de 2007

A Torre Sem Forma

O homem abriu silenciosamente a porta, fazendo com que a jovem entrasse logo em seguida. A sala ampla estava parcamente iluminada por algumas lanternas de vidro trabalhado em motivos orientais, dentro das quais flamejavam pequenas esferas de um fogo avermelhado e frio, emprestando um tom lúgubre e sanguíneo às centenas de livros que repousavam em suas estantes gigantescas. A garota apertou levemente os olhos, em uma expressão de curiosa incredulidade, ao ver vinte tambores verticais dispostos de modo a formar um círculo fechado.

- Meu teste será um jogo, mestre? – ela questionou, já caminhando para o centro do tabuleiro e analisando-o com cuidado.

O sorriso do mago ultrapassou as sombras do seu manto quando ele girou a chave na porta, meneando positivamente a cabeça. A aprendiz suspirou levemente, retribuindo o sorriso de seu mentor, e desfez-se do seu próprio manto, balançando graciosamente os braços para deixar as mangas de seu vestido livres.

- Sem faixas desta vez, meu anjo – ele disse, movimentando-se com tamanha rapidez que a jovem apenas teve tempo de ver dois riscos prateados, e em seguida, as longas faixas presas aos seus braços caindo no chão ao mesmo tempo em que ela ouvia o som do aço japonês retornando à sua bainha – Hoje deverás tocar cada um dos tambores que forem atingidos pelas conchas.

- Tocar? – a garota questionou, sacando uma adaga e estendendo o braço na direção de um dos tambores – Mas são cinqüenta pés de distância, eu...

- E só passarás no teste se tocar cada um deles... – Hidan sorriu, vendando os olhos dela e deixando que seus dedos escorregassem entre os fios do cabelo da maga, acariciando levemente suas costas - na seqüência correta.

Ela guardou a adaga de volta na bainha, levantando a mão para tocar aquela que lhe era tão carinhosa, mas o mestre Ksirafai não estava mais às suas costas. Tum. A primeira concha foi arremessada, acertando precisamente o centro de um dos tambores. A aprendiz mordeu a língua para não praguejar contra seu mentor e inspirando profundamente. Mesmo com os olhos vendados, um traçado suave e distinto surgiu diante dela, e a jovem adiantou-se para encostar o tambor atingido, retornando ao centro imediatamente depois. Tum. A segunda concha foi arremessada, e agora a maga já estava ciente do trajeto que ela fazia, tocando o tambor apenas alguns segundos após o objeto. Tum. A terceira concha foi arremessada, e a garota teve a nítida impressão de que o mago estava aumentando a velocidade dos toques, pois ela mal retornou e já teve que correr novamente para outro tambor. Tum. Tum. Tum. Hidan a fazia mover-se no compasso das batidas de seu coração. A aprendiz sorriu ao perceber isso. Quanto mais corresse, mais rápido seu mestre arremessaria as conchas e chegaria o momento em que ela não poderia mais acompanhá-lo, falhando. Ela aumentou sua concentração. Precisaria muito mais do que suas habilidades mundanas para cumprir a missão que lhe era incumbida. Deixou que alguns tambores fossem tocados até que voltou sua atenção plena para eles, encontrando na Trama os diversos atalhos usados pelos Querubins para tornar suas mensagens mais ligeiras e aproximar os amantes. Um passo apenas e ela tocou os quatro tambores em seqüência.

Por baixo da venda a sala pareceu mais escura por alguns instantes. O som dos tambores tocados pelas conchas chegava como um eco distante aos ouvidos dela, abafado pela música suave de um piano sendo dedilhado em um local muito próximo.