domingo, 28 de outubro de 2007

Fogo Sagrado

“Demonstrastes uma força que jamais me permitiria abandoná-la, meu pequeno anjo”, Sahira ouviu ecoar em sua mente uma voz, poderosa o suficiente para fazê-la estremecer, mas ao mesmo tempo, gentil e amável, reconfortante em seu coração.

Neste instante, ela sentiu que tudo havia cessado ao seu redor. Não havia mais dor, nem som, nem luz. O silêncio era quebrado unicamente por aquela voz, mas a menina não compreendia de onde ela vinha. Sahira sentiu um par de olhos sombrios sobre ela, submersos na mais pura tristeza. Ela sentiu a brisa gélida da morte acariciar seu rosto e um beijo angelical em suas pálpebras.

“Minha força é a tua força, se assim aceitares, meu ser bem amado... E a Fúria do Senhor será tua arma contra os maus e os injustos... Aceitas a Verdade de Deus?”.

- A-aceito... – Sahira murmurou, semiconsciente e ainda sob a tortura do mago, mas seu sofrimento parecia ter chegado a tal ponto, que ela delirava algo que os homens ignoravam.

A escuridão começou a se dissipar diante dos seus olhos, e a menina estendeu a mão direita na direção da luz crescente que agora vinha até ela. Para sua surpresa, seus dedos tocaram outros, cálidos e ternos, e ela sentiu como se houvesse sido atingida por um raio, tamanho o poder que fluiu por todo o seu corpo. Sahira retomou a consciência completa e abriu os olhos e a boca, de onde brotou uma luz de intensidade divina, que momentaneamente cegou os cinco homens, arremessando-os há alguns metros de distância. As estacas de ferro derreteram, e o corpo da menina ficou de pé, ainda na posição da cruz, flutuando alguns centímetros acima do chão. Suas amarras incandesceram, enquanto chamas purificadoras cobriram-na onde estava seu vestido e o sangue que lhe escorria dos ferimentos desenhou uma túnica escarlate ao redor do seu corpo, adquirindo, em uma breve explosão de luz, a textura da mais pura seda, esvoaçando ao sabor do vento que precedeu uma tempestade torrencial, extinguindo toda e qualquer fonte de luz no palacete. Trovões ensurdecedores retumbaram pelos quatro cantos da cidade e os raios crispavam o céu revolto, lançando uma iluminação mórbida e cruel pelas janelas abertas.

Os homens olharam inicialmente aterrorizados para a figura, e foram obrigados a permanecerem de joelhos sob a pressão daquele poder. Seus olhos não conseguiam se desviar do espetáculo diante deles, e então, uma sombra surgiu na frente da menina, enfurecida e rancorosa, fazendo os magi estremeceram diante da promessa de morte.

Sahira finalmente conseguiu enxergar, e mesmo de noite, todas as coisas, todas as cores, os sons e as sensações pareceram-lhe mais vivas. Nem todo o encanto das narrativas de Makaoto poderia descrever o que ela vislumbrava agora, e era simplesmente divino. Diante dela estava ele: o rosto jovem, de traços orientais, envolto por longos cabelos negros e lisos, presos em um elegante rabo de cavalo. Os olhos escuros, serenos e profundos, davam a sensação de uma experiência secular, e seu porte alto e distinto apresentava um equilíbrio perfeito entre jovialidade e conhecimento. O par de asas em suas costas deu à menina a certeza de que era um anjo que estava ali, e a lança em sua mão direita disse-lhe que ela estava diante de Uriel. Sahira sorriu.

O anjo flutuou até as costas dela e envolveu-a carinhosamente em suas asas. A menina sentiu-se abraçada, ao mesmo tempo em que parecia abraçar ao anjo. Ela soube que Ele havia entrado em sua alma, ao mesmo tempo em que ela compartilhava da essência Dele. Sahira encolheu-se no ar, ficando alguns momentos em posição fetal, e quando Uriel abriu suas asas ela saiu, renascendo em uma imagem de poder aterrador. Ela tocou os pés descalços no chão, abrindo em suas costas um par de asas espectral. A túnica adquiriu o tom de um rubi quando ela estendeu o braço direito para frente. Da palma de sua mão surgiu um ponto brilhante, e os guerreiros viram surgir, como se nascesse do braço dela, uma lança de ponta aguda e afiada. Possuía mais de três metros, mas mesmo empunhada por mãos tão pequenas, não parecia menos mortal. Eles se levantaram e desembainharam suas espadas assim que se sentiram no comando de seus corpos novamente.

- Eu sou a Portadora da Chama de Deus... – ela declarou, e sua voz agora se mesclava à do Anjo – o Arauto da Presença Divina... O Profeta da Salvação...

Os homens entreolharam-se, e aquele que parecia liderá-los sorriu com desdém e desferiu o primeiro golpe.

- Serás a Portadora da Morte Imediata em breves momentos, bruxa amaldiçoada!

A lâmina brilhou em seu arco ascendente, embalada pela força descomunal do guerreiro que a empunhava, mas Sahira apenas fechou os olhos em uma piedade impessoal, e Uriel estendeu sua asa diante dela, ao mesmo tempo em que a garota levou o braço diante do rosto, bloqueando completamente o golpe que seria fatal. Os outros cavaleiros logo acompanharam o ataque do seu líder, inflamando suas espadas com um fogo avermelhado e demoníaco, murmurando preces hereges aos ouvidos da menina. Sahira apertou os dedos ao redor do cabo da lança, empunhando-a também com a outra mão, e abriu os olhos, fitando com frieza o segundo mago que avançou para atacá-la. Com um movimento rápido a lâmina da lança cortou o ar, tingindo a parede com uma mancha vermelho-sangue, antes mesmo de tocar seu alvo. O guerreiro perdeu o controle de suas pernas e levou imediatamente a mão esquerda até a cintura, agora com um corte fino e preciso, segundos antes de tombar com estrondo, dividido ao meio. Segurando com mais firmeza suas espadas, os magi avançaram em conjunto contra a menina, formando uma força de ataque bastante superior à inicial.

- Sim... A Portadora da Fúria do Senhor... – ela respondeu finalmente, assumindo uma posição neutra.

Sahira aguardou a aproximação dos homens, rebatendo seus golpes com movimentos graciosos de corpo e lança. A dança mortal que a menina conduzia vez por outra se confundia com a forma aterradora do Arcanjo. Uriel sussurrava orações em seu ouvido, em uma língua que não era daquele mundo, e a cada pausa dada, Sahira desferia mais um golpe, e o sangue de seus inimigos espirravam ao seu redor. Apesar de parecer completamente fora de si, e em seu íntimo desejar profundamente devolver toda a dor causada a sua família, poucos ataques foram mortais, poucos foram os cortes letais, como se algo a impedisse de ir além e bloqueasse, ainda que minimamente, seu desejo por morte. Um a um, os cavaleiros foram caindo ao chão, com lacerações profundas nos braços e pernas, praticamente incapazes de se levantarem. O contra-ataque resumia-se unicamente à defesa, pois não havia mais nada que pudessem fazer.

O anjo estendeu sua asa sobre o braço da menina e a lança desapareceu sob suas penas. Ela caminhou, quase deslizando, até o líder de seus oponentes e ajoelhou-se com um ar piedoso em seu semblante.

- Pobre homem... Tua existência maldita, que punição cruel! – ela sussurrou, a voz infantil encorpada e destoada pela sombra de Uriel.

Ela acariciou o rosto ensangüentado do cavaleiro, e do líquido que manchou seus dedos, ela forjou uma adaga, semelhante à arma que ele mesmo utilizara para ferir seu corpo anteriormente, mas com o matiz escarlate da sua vida. A menina deslizou a lâmina do rosto até o pescoço do homem, que nada fez além de observá-la com frieza e determinação.

- Cumpra tua jornada, feiticeira... – ele resmungou, a voz misturada ao sangue que se acumulava em sua boca.

- Mostrarei toda a minha piedade... Acabarei com toda a dor... Dar-te-ei a paz!

Sahira levantou o braço e as plumas alvas das asas do anjo acompanharam o seu gesto, tornando-se negras tão logo ela conduziu a adaga na direção da carne desprotegida do mago. O movimento era certo e mortal, mas antes mesmo que a ponta da arma tocasse o pescoço do homem, o som do metal ecoou no mármore e a menina segurou a mão que portava a adaga contra o peito, confusa e desnorteada.

- Chega de mortes por hoje - a voz conhecida do oriental chegou aos ouvidos dela suavemente - Uma criança do teu tamanho já viu desgraças para uma vida inteira, meu anjo... Não permitirei que te acostumes tão cedo com o cheiro do sangue.

A pequena maga voltou seus olhos para a entrada do palacete e sorriu, praticamente ignorando as palavras que Makaoto pronunciava. Tudo o que Sahira via, era seu anjo protegendo-a de todas as formas. Era Ele, às suas costas, que emprestava a ela força e coragem. E era Ele, à sua frente, que trazia o Juízo Final aos pecadores.

O mago aproximou-se da menina, mas não o suficiente para tocá-la. A presença do Arcanjo era poderosa, e o olhar desconfiado que ele lançou ao oriental o fez reconsiderar suas ações. Makaoto observou aquela expressão do avatar de Sahira e colocou-se entre a garota e o homem que ela estava prestes a matar. Ele sacou a lâmina oriental de sua bainha e saciou o desejo de sangue de Uriel, cravando a ponta da espada no coração do oponente de Sahira. O Anjo fechou os olhos, parecendo satisfeito, ao mesmo tempo em que ela também fechou os seus, desacordada, e apenas não desabou porque o mago a segurou antes. A tempestade que açoitara Constantinopla até então, abrandou, e tudo o que restou foi o lamento da garoa que permaneceu em seu lugar.

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