sábado, 27 de outubro de 2007

Infância Interrompida - Epílogo

Sahira piscou uma, duas, três vezes, e ainda assim, seus olhos continuavam ardendo com a luminosidade súbita. A menina esfregou o pulso direito, sobre o qual havia caído, enquanto observava ao seu redor tentando reconhecer o local onde estava. Seus olhos bicolores logo se familiarizaram com a sala de sua casa e, por um breve momento, Sahira esboçou um sorriso aliviado, levando ambas as mãos ao próprio peito em sinal de tranqüilidade.

- Finalmente chegastes para a festa, huh? – uma voz rouca chegou áspera em seus ouvidos, acompanhada pelo som de passos decididos e armadurados – Então... Tu és a donzela entre os cavaleiros do apocalipse...

A garota levantou os olhos, estendendo a palma da mão direita sobre eles para conseguir enxergar, mas não venceu a intensidade da luz antes que seu pulso fosse agarrado firmemente, elevando-a dolorosamente do chão. Os olhos claros do homem pareciam não apenas examiná-la fisicamente, eles vasculhavam sua essência de forma tão descarada e invasiva que Sahira enlaçou o braço livre ao redor do corpo e virou o rosto para o lado, constrangida demais para encará-lo.

- Imaginava-a mais velha, donzela... – ele sussurrou, segurando o queixo da menina enquanto a analisava de perto com um sorriso debochado nos lábios – e bem menos inocente, sendo uma bruxa...

- B-Bruxa...? – Sahira murmurou, fazendo uma careta ao sentir o aperto dos dedos do homem em seu rosto.

- Bruxa... – ele confirmou sombriamente, fazendo-a olhar ao seu redor.

Dezenas de corpos estavam espalhados pelo chão, alguns mutilados por lâminas bastante afiadas, outros com as roupas chamuscadas ao redor de queimaduras gigantescas. A garota contou quatro acompanhantes do homem que a segurava agora. Dois deles caminhavam pela sala, com as espadas em punho, atravessando a garganta dos que ainda se contorciam agonizantes, e executando o sinal da cruz ao final de cada morte. Os outros dois estavam ao redor de sua mãe, mas ela não conseguia entender o que faziam com ela. Mesmo deitada, com os cavaleiros sobre ela, a baronesa não emitia som algum, exceto por um gemido cansado de dor quando algum deles desferia um sonoro tapa em seu rosto.

- Mãe! – Sahira gritou, esquecendo-se de sua própria condição, e debateu-se com tamanha violência que o homem esmurrou-lhe o estômago para contê-la – Uhng! M-Mãe...

- Cala-te, feiticeira amaldiçoada! – ele vociferou, chacoalhando-a no ar, ainda suspensa pelo pulso que começava a emitir estalidos lancinantes e voltou-se para aqueles que terminavam de matar os moribundos – Prendam-na! Vamos executar o exorcismo.

-M-Mãe... – ela choramingou, voltando seu rosto para procurar sua progenitora, sentindo fortes náuseas pelo soco e pelo odor intenso de sangue.

O cavaleiro jogou-a no chão, fazendo com que ela ofegasse ao bater as costas na parede, contorcendo-se com a dor do impacto. Os outros homens imediatamente a contiveram, atando seus pulsos e tornozelos em estacas de ferro presas ao chão em forma de cruz, e afastaram-se em seguida. O mago desenhou um círculo de sal ao redor dela, e adentrou, abaixando-se ao seu lado e desembainhando uma pequena adaga de metal negro. Os olhos de Sahira arregalaram-se, cada vez mais submersos em lágrimas, e o seu suor exalava uma mistura do aroma de sândalo com o odor exótico do medo.

- Pelo bom Deus, senhor... – ela murmurou, trêmula e desesperada - Tenha piedade... D-Deixem-nos em paz...

- Esta é a maior piedade que os guerreiros do Senhor podem demonstrar, donzela – ele chiou, cortando a frente do vestido dela, desnudando-lhe os ombros e o colo – Se fores purificada, Ele a perdoará de teus pecados e permitirá tua entrada no Paraíso...

A menina fechou os olhos, cerrando os dentes com força ao sentir a lâmina fria próxima do seu corpo. Os cavaleiros restantes aproximaram-se, posicionando-se cuidadosamente ao redor deles, enquanto entoavam cânticos em latim e a ponta afiada da adaga encostou em sua pele, provocando o primeiro corte, torturantemente lento e profundo. Sahira gritou, e a expressão de sua dor ecoou por todo o palacete. A senhora Leniath abriu um pouco os olhos inchados pelas lágrimas e contusões, e murmurou o nome da filha com dificuldade, mas foi imediatamente retaliada com um novo pontapé em suas costelas.

- Não! – a menina chorou desesperada, mas seu protesto terminou em um novo urro de dor quando o cavaleiro encravou-lhe um segundo corte em seu colo.

Filetes de sangue já escorriam por seus ombros, formando no chão uma pequena poça cor de vinho. Um pouco dele tocou o relicário no pescoço de Sahira e fez a garota recordar-se das palavras de Hidan. Em meio ao seu sofrimento, ela voltou-se imediatamente para Uriel, abrindo os olhos com dificuldade e elevando uma súplica aos céus.

- Tsadkiel, Elohim Divino – ela murmurou, com os dentes cerrados para suportar a dor excruciante dos ferimentos - Que organiza as forças do mundo, para melhor fluir com toda a vossa capacidade de energia...

- Sim, ore, feiticeira! – riu o homem, entalhando mais um símbolo logo abaixo do pescoço dela – Talvez o Uno tenha alguma piedade da tua pobre alma...

- ...E-em vossa eterna regência vinde a mim... Para abençoar-me com a verdade e tolerância e a capacidade de distinguir, a-avaliar e... Discernir. Amado príncipe Tsadkiel, peço gentilmente a vossa clemência... Para todas as pessoas de bem...

Sahira tinha as mãos dormentes, resultado de as manter fechadas para suportar a dor. Os cortes ardiam como fogo e ela nem mesmo conseguia respirar direito, porque qualquer movimento dava-lhe a sensação de que seu corpo inteiro rasgaria.

- ...Nunca me deixe frágil contra meus inimigos... E... E que eu possa suportar tudo com dignidade... – ela balbuciou, já perdendo o foco das imagens ao seu redor e começando a sentir seu corpo entorpecido – Tsadkiel... B-bondade... Justiça e sublimação... Agora e sempre... Amém...

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