segunda-feira, 29 de outubro de 2007

Mais uma vez na Torre Sem Forma

A venda que cegava a aprendiz estava completamente encharcada, não apenas pelo suor que escorria farto de sua testa, como pelas lágrimas que seus olhos não conseguiam mais conter. A sala pareceu mortalmente silenciosa depois do grito que dera, clamando por sua mãe. Muitos anos se passaram desde a morte dela, mas mesmo assim os fantasmas daquela noite a perseguiam. Sahira sentiu seus braços tremerem, perdendo gradativamente a força pelo cansaço, e só então ela percebeu que bloqueava a katana de seu mestre com sua adaga, ao mesmo tempo em que mantinha muito próximo ao pescoço dele as lâminas arremessadas anteriormente em sua direção. A maga deixou as armas caírem no chão, soltando pesadamente os braços, quase ao mesmo tempo em que caiu de joelhos, chorando com mais intensidade.

O som da lâmina japonesa batendo contra o piso de pedra chegou longínquo aos ouvidos dela, e foi esquecido tão logo ela sentiu o abraço protetor de Makaoto, envolvendo-a carinhosamente. O oriental desatou a venda que cobria os olhos da jovem e levantou com cuidado o rosto dela, beijando-a com paixão. Quando Sahira parou de tremer, ele aproximou seus lábios do ouvido dela.

- Parabéns, meu anjo – ele sussurrou acalentador - Completastes teu teste com graça e maestria.

Sahira apenas sorriu antes de recostar a cabeça no peito do mago pela exaustão. Hidan retribuiu o sorriso, afagando-lhe os cabelos enquanto a levantava no colo, também ele mais aliviado com o término do teste. Ao invés de deixá-la em seu quarto, o mago a levou consigo para seus aposentos, preparando-lhe um banho revigorante com infusão de ervas e flores. Seu corpo não sofreria os dolorosos efeitos de tamanho esforço.

Ela saiu um pouco mais desperta da água quente, não estando curada apenas de seu desgaste, mas também os ferimentos que sofrera durante o teste haviam cicatrizado sem deixar marcas. Por um momento a garota sentiu a atenção de Makaoto sobre si, como se ele admirasse séculos de sua beleza apenas com um breve olhar, mas quando se virou, ele já a envolvia com uma toalha, auxiliando-a a sair da banheira e a conduzindo para o quarto.

Como de costume, a aprendiz nem mesmo terminou de se secar. Caminhou até a beirada da cama e deixou a toalha cair aos seus pés, aguardando a aproximação do mago. Ele sorriu, satisfeito com a dedicação demonstrada, mas ao invés de envolvê-la com luxúria, Makaoto ajeitou sobre os ombros delicados de Sahira um kimono leve, de seda azul. A garota ficou confusa, voltando os olhos para seu mestre em sinal de indagação, pois ele apenas a vestia quando não desejava mais sua companhia.

- N-Não compreendo, mestre. Pensei que...

- Deite-se, Sahira – ele disse com tranqüilidade, enquanto preparava uma xícara de chá.

Ela ficou de pé olhando para o kimono. Não sabia se terminava de vestir a roupa e saía, ou se a despia e deitava na cama.

O oriental voltou-se para a jovem e observou, divertido, sua incompreensão. Entregou a bebida à menina, que meneou a cabeça em agradecimento, e a fez sentar na cama, terminando com o dilema, ele mesmo acomodando-se em uma poltrona próxima. Sahira tomou um pequeno gole do chá, fechando os olhos para que o sabor exótico da mistura de ervas fosse mais intenso. Hidan a instruíra dessa forma, e repetia este ritual todas as noites, sempre que se encontrava presente, desde o dia em que levara Sahira consigo para a Torre Ksirafai. Em silêncio, ele observou a criança que, há alguns anos atrás acordava aos gritos todas as noites, assombrada por pesadelos que a faziam reviver seus últimos momentos como Adormecida. A bebida a acalmava, e a certeza de que o mago estaria ao seu lado para protegê-la a permitia dormir tranqüila. Sahira tomou o segundo gole, sentindo a habitual torpeza que o chá induzia, e as lembranças desagradáveis que ainda pairavam em sua mente começaram a se dissipar pouco a pouco. Ela afastou a xícara dos lábios e observou o líquido com seriedade, pousando a louça sobre o criado mudo.

- Vai esfriar – o mago suspirou, cruzando as pernas enquanto a observava – e se não terminares, teus pesadelos retornarão.

- Não quero mais – ela murmurou, encolhendo-se enquanto aguardava a ira do oriental bombardeá-la.

A postura de Makaoto não se alterou.

- Perdão?

- Não quero mais tomar o chá – a aprendiz disse, levantando os olhos para seu mestre com determinação – Não me importo se os pesadelos voltarem. Eles assustavam a criança que eu fui, mas como posso saber se me assustarão agora, se nem mesmo me recordo do que se tratavam?

O mago se levantou e caminhou até ela, fitando-a como quem enxerga sua alma, e então parou diante da menina. Sahira fechou os olhos e prendeu a respiração, aguardando a punição que considerava adequada para sua petulância. Hidan segurou sua mão e a pôs de pé, abraçando-a com carinho enquanto sussurrava em seu ouvido.

- Um aprendiz, por ter menos experiência e sabedoria, deve obedecer ao seu mestre. Assim como o mestre, por ser mais forte, deve sempre proteger seu aprendiz. Se digo que deves tomar o chá e descansar, é porque sei que será o melhor para ti neste momento.

- Não! – ela ajoelhou-se aos pés de Makaoto mantendo a testa colada ao chão - Não me deixe esquecer novamente. Tu mesmo disseste que falsas memórias nunca criaram um espírito verdadeiro. São lembranças tristes, eu sei agora mais do que nunca, mas foram elas que me moldaram da maneira que sou. Que tipo de pessoa vive sem um passado, meu senhor?

O oriental a observou com um suspiro, abaixando-se para tirá-la do chão.

- Vamos, vamos – ele disse, em tom paternal, erguendo o rosto dela para que olhasse em seus olhos – Não achas que estás exagerando um pouco? Sabes muito bem que jamais faria algo para prejudicar-te. Eu te amo, lembra-te disto.

- Perdoe-me, mestre – a menina disse, desviando o olhar, constrangida por duvidar de seu mentor.

Hidan buscou mais uma vez os olhos dela, fitando-a com desejo e paixão. O mago ainda segurava-lhe o queixo quando enlaçou o braço em sua cintura, fazendo com que a jovem sentisse o seu corpo. Sahira fechou um pouco os olhos, e nem mesmo percebeu que seus lábios, agora quase colados aos de Makaoto, estavam entreabertos e sedentos.

- Confia em mim, meu anjo, como sempre confiastes. Quero o teu bem acima de tudo. Acreditas em minhas palavras?

- S-Sim... – ela murmurou, inebriada pelo perfume adocicado da flor de cerejeira.

- Que bom – o oriental sorriu, roçando levemente seus lábios nos dela, provocando-a – Fico muito feliz em saber disto.

O mago finalmente a beijou, saciando a necessidade que ele mesmo criara em sua aprendiz. Aquela carícia fez a menina perder-se entre as memórias que Hidan lhe emprestava naquele instante, ignorando completamente as novas lembranças. Esquecera do seu despertar, esquecera de sua mãe e dos magos amaldiçoados que a torturaram. Esquecera até mesmo de ter recordado disto durante o seu teste. Makaoto afastou levemente seu rosto do dela, externando uma paixão infinita, e Sahira retornou o mesmo olhar, tendo como único foco o semblante do oriental.

- Já está tarde, meu anjo. Vou esquentar teu chá e iremos dormir, já nos divertimos demais para um único dia.

- Sim, mestre – ela respondeu, despindo o kimono por instinto e deitando-se na cama.

Hidan buscou a xícara com o líquido ainda fumegando, pouquíssimo tempo havia se passado desde que entregara a poção a ela. A maga tomou um pequeno gole do chá, fechando os olhos para que o sabor exótico da mistura de ervas fosse mais intenso. Hidan a instruíra dessa forma, e repetia este ritual todas as noites, sempre que se encontrava presente, desde o dia em que levara Sahira consigo para a Torre Ksirafai. Algo naquela ação pareceu-lhe familiar, mas a menina abanou de leve a cabeça, espantando qualquer intenção de memória como se atribuísse essa sensação ao cansaço que a acometia. Makaoto aguardou o sono ser profundo para refazer o selo, e o ritual se prolongou até os primeiros raios de sol adentrarem as cortinas de seus aposentos.

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