terça-feira, 23 de outubro de 2007

Infância Interrompida - Prólogo

- Sahira? – a voz de sua mãe alcançou-a através dos corredores do palacete quando a senhora abriu a porta da sala de estudos – Sahira, tens uma visita.

A menina parou imediatamente seus exercícios de dança, sorrindo animada ao ver o homem que adentrava a sala junto com sua mãe, precedido pelo suave perfume da flor de cerejeira. O rosto jovem, de traços orientais, era envolto por longos cabelos negros e lisos, presos em um elegante rabo de cavalo. Os olhos escuros, serenos e profundos, davam a quem quer que os observasse, a sensação de uma experiência secular, e seu porte alto e distinto apresentava um equilíbrio perfeito entre jovialidade e conhecimento. Sahira não conseguiu evitar a admiração descarada ao fitá-lo, ainda mais vestindo aqueles trajes exóticos que lhe caíam tão bem. Curvou-se com graciosidade para sua pouca idade e avançou alguns passos até ele.


- Senhor Hidan! Veio à Constantinopla a trabalho ou para presenciar meu aniversário?


- Vim a trabalho, senhorita – Makaoto ajoelhou-se diante dela, ficando assim mais próximo de sua altura enquanto beijava-lhe educadamente a mão – mas se for convidado, ficarei muito honrado em aparecer. Quando será o baile?


- Daqui a dois dias, senhor – ela respondeu, lançando um olhar intrigado para sua mãe – Pensei que a senhora houvesse enviado um convite para ele, mamãe...
A baronesa inclinou levemente a cabeça, erguendo os ombros em sinal de incompreensão.

- Talvez... – ele respondeu, disfarçando um certo desconforto com a informação – apenas não tenha chegado ainda, meu anjo. E o que a jovem dama irá querer de presente?


Sahira permaneceu algum tempo pensativa, considerando o que poderia pedir. Finalmente, abrindo um novo sorriso, ela declarou:

- Uma dança, senhor Hidan. Quero que sejas meu acompanhante no baile.
O oriental levantou as sobrancelhas, divertido com a ousadia da menina, enquanto a senhora Leniath levou as mãos diante da boca, horrorizada.

- Sahira, minha filha! Não...


- Uma dança? – Makaoto questionou, erguendo a mão para a baronesa em sinal de descaso, enquanto observava Sahira com interesse.


- Sim, uma dança. Como a que o senhor teve com a senhorita Ângela, no dia de minha apresentação.


Hidan colocou-se de pé, e a seriedade com a qual olhou para a menina a fez considerá-lo muito mais alto do que ele já era.


- Como a que tive com Ângela, Sahira? – ele se aproximou mais dela, fitando-a sedutoramente e arrancando um gritinho da senhora pela intimidade com a qual tratou sua filha.


- E-exatamente, senhor Hidan – ela respondeu com um fio de voz, mas ainda sustentava o olhar do oriental.


- Senhora Leniath – Makaoto levantou-se, segurando a mão da baronesa e beijando-a cordialmente, enquanto mantinha os olhos negros fixos nos da mãe de Sahira, prendendo sua atenção de forma sobrenatural – gostaria de ter uma conversa com sua filha. Acredito que alguns conceitos da minha terra natal possam ajudá-la a tornar-se uma jovem bastante virtuosa.


A senhora assentiu com um meneio de cabeça vago, como se houvesse esquecido completamente os minutos anteriores, e abananou para que o professor a acompanhasse, deixando Hidan e Sahira a sós. Assim que os dois fecharam a porta, Makaoto aproximou-se um pouco mais da menina, curvando-se elegantemente ao convidá-la para uma dança.

- Dar-me-ia a honra, senhorita?


- Mas não há música alguma aqui – ela comentou com um sorriso divertido sem, no entanto, recusar o convite.


- E não é mesmo? – Hidan sussurrou enquanto a segurava no colo para que ela o alcançasse – Permita-me então a honra de bailar ao som do teu sorriso.


- Por que estamos fazendo isso agora, senhor Hidan? Meu aniversário é só daqui a dois dias...


- Porque é possível que eu não possa comparecer, meu anjo. Não recebi o convite a tempo e marquei outros compromissos para estes dias. Vim vê-la hoje, pois é minha única tarde livre.


Sahira desviou os olhos de Makaoto, entristecida pela notícia. O longo cabelo acobreado escorregou pelo seu pescoço e revelou uma delicada correntinha de prata com um relicário de Uriel como pingente.


- Não são comuns os devotos de um anjo como este.


- Foi um presente de minha mãe – ela comentou vagamente, saindo por um instante do vazio em que se colocara – O Anjo do Arrependimento e da Salvação. Ela disse-me que, se eu for fervorosamente devota a Ele, então estarei livre do Inferno para sempre.

- Um ótimo motivo – Makaoto murmurou, tocando levemente o relicário e fazendo a menina corar – e também o melhor anjo a se recorrer nos momentos de desespero...


- Não poderá mesmo vir ao meu aniversário, senhor Hidan? – ela o interrompeu, sem coragem de olhá-lo nos olhos, mas seus pequenos dedos tocaram a mão do oriental enquanto ela buscava seu relicário, julgando uma boa hora para recorrer a Uriel – Meu pai permitirá que me cortejem durante o baile...


Makaoto parou de conduzir a dança por alguns segundos, observando profundamente a menina. Finalmente sorriu, um sorriso discreto e levemente oblíquo e vitorioso, retomando os passos enquanto tocava o rosto de Sahira, fazendo-a olhar para ele.


- Pensei que ficarias feliz com isso. As meninas da tua idade costumam apreciar a corte.


- Ficaria, senhor... Se eu possuísse qualquer intenção de casar-me com pretendentes que nem mesmo conheço – ela respondeu, fixando-lhe os olhos bicolores com uma determinação bastante madura.


- Tão jovem... E com um espírito tão livre – Makaoto divagou, cada vez mais impressionado – Deves ser o desespero de teus pais, meu anjo! Se não fosses tão nova, eu mesmo a cortejaria, nem que fosse unicamente para ouvir tua recusa.


Sahira sorriu ao ouvir o comentário, enquanto Hidan a colocava de volta no chão, fazendo-a girar uma última vez em seu próprio eixo e ajoelhando-se novamente para acompanhar-lhe a altura.


- Não recusaria... – ela murmurou inaudivelmente, ruborizando em apenas imaginar que Makaoto pudesse tê-la ouvido.


- Perdão? – Hidan disfarçou com um sorriso bastante discreto o seu conhecimento das palavras da menina.


- Ah! Somente disse que é uma pena... O senhor sabe que aprecio muito vossa companhia, será uma festa entediante sem a vossa presença.


- Por certo que não será, minha pequena Sahira – Makaoto segurou gentilmente o queixo dela e beijou ligeiramente os lábios infantis, atordoando-a – É o
teu aniversário, e com uma anfitriã tão graciosa, os Céus não permitirão que aconteça nada que a aborreça neste dia. Vamos sair? A senhora Leniath deve estar nos esperando na sala de estar, e mais um pouco ela poderá pensar que os métodos de ensino japoneses não sejam exatamente adequados para sua filha...

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