segunda-feira, 22 de outubro de 2007

A Torre Sem Forma

O homem abriu silenciosamente a porta, fazendo com que a jovem entrasse logo em seguida. A sala ampla estava parcamente iluminada por algumas lanternas de vidro trabalhado em motivos orientais, dentro das quais flamejavam pequenas esferas de um fogo avermelhado e frio, emprestando um tom lúgubre e sanguíneo às centenas de livros que repousavam em suas estantes gigantescas. A garota apertou levemente os olhos, em uma expressão de curiosa incredulidade, ao ver vinte tambores verticais dispostos de modo a formar um círculo fechado.

- Meu teste será um jogo, mestre? – ela questionou, já caminhando para o centro do tabuleiro e analisando-o com cuidado.

O sorriso do mago ultrapassou as sombras do seu manto quando ele girou a chave na porta, meneando positivamente a cabeça. A aprendiz suspirou levemente, retribuindo o sorriso de seu mentor, e desfez-se do seu próprio manto, balançando graciosamente os braços para deixar as mangas de seu vestido livres.

- Sem faixas desta vez, meu anjo – ele disse, movimentando-se com tamanha rapidez que a jovem apenas teve tempo de ver dois riscos prateados, e em seguida, as longas faixas presas aos seus braços caindo no chão ao mesmo tempo em que ela ouvia o som do aço japonês retornando à sua bainha – Hoje deverás tocar cada um dos tambores que forem atingidos pelas conchas.

- Tocar? – a garota questionou, sacando uma adaga e estendendo o braço na direção de um dos tambores – Mas são cinqüenta pés de distância, eu...

- E só passarás no teste se tocar cada um deles... – Hidan sorriu, vendando os olhos dela e deixando que seus dedos escorregassem entre os fios do cabelo da maga, acariciando levemente suas costas - na seqüência correta.

Ela guardou a adaga de volta na bainha, levantando a mão para tocar aquela que lhe era tão carinhosa, mas o mestre Ksirafai não estava mais às suas costas. Tum. A primeira concha foi arremessada, acertando precisamente o centro de um dos tambores. A aprendiz mordeu a língua para não praguejar contra seu mentor e inspirando profundamente. Mesmo com os olhos vendados, um traçado suave e distinto surgiu diante dela, e a jovem adiantou-se para encostar o tambor atingido, retornando ao centro imediatamente depois. Tum. A segunda concha foi arremessada, e agora a maga já estava ciente do trajeto que ela fazia, tocando o tambor apenas alguns segundos após o objeto. Tum. A terceira concha foi arremessada, e a garota teve a nítida impressão de que o mago estava aumentando a velocidade dos toques, pois ela mal retornou e já teve que correr novamente para outro tambor. Tum. Tum. Tum. Hidan a fazia mover-se no compasso das batidas de seu coração. A aprendiz sorriu ao perceber isso. Quanto mais corresse, mais rápido seu mestre arremessaria as conchas e chegaria o momento em que ela não poderia mais acompanhá-lo, falhando. Ela aumentou sua concentração. Precisaria muito mais do que suas habilidades mundanas para cumprir a missão que lhe era incumbida. Deixou que alguns tambores fossem tocados até que voltou sua atenção plena para eles, encontrando na Trama os diversos atalhos usados pelos Querubins para tornar suas mensagens mais ligeiras e aproximar os amantes. Um passo apenas e ela tocou os quatro tambores em seqüência.

Por baixo da venda a sala pareceu mais escura por alguns instantes. O som dos tambores tocados pelas conchas chegava como um eco distante aos ouvidos dela, abafado pela música suave de um piano sendo dedilhado em um local muito próximo.

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