quinta-feira, 25 de outubro de 2007

Um Presente Especial

Os convidados começavam a dispensar a mesa do banquete para dirigirem-se ao salão de festas, sob a tutela cuidadosa da baronesa. Sahira permanecia sentada à esquerda de seu pai, aguardando até que o último dos presente se levantasse. O olhar do barão recaiu por alguns instantes sobre a filha e ele sorriu. A menina estava simplesmente divina no vestido de pura seda azul, os cabelos lisos e acobreados presos em um arranjo que emprestava uma expressão madura ao rosto infantil, e os olhos, um verde e o outro castanho, exalavam uma excentricidade quase sedutora para seus sete anos. O senhor Assiath estava satisfeito. Com o dote apresentado e o título de baronesa, certamente muitos homens se interessariam por Sahira. Mas aquela beleza rebelde arrebataria o coração até mesmo do mais mesquinho entre eles. O futuro de sua filha estava assegurado, sem sombra de dúvidas.

- Vamos? – ele a interrompeu de seu tédio, estendendo-lhe a mão para que ela se levantasse e seguisse para o salão – Estão todos dançando, é a tua vez de aparecer.

- Sim, papai – a garota respondeu automaticamente, apenas mantendo o tom respeitoso que deveria apresentar.

Sahira adentrou o salão atraindo para si praticamente toda a atenção da festa. O barão não errara ao supor que sua filha se destacaria facilmente, e até mesmo alguns senhores bem casados dardejaram olhares de cobiça na direção da menina. Ela curvou-se em um agradecimento silencioso e dirigiu-se para uma poltrona preparada especialmente para ela durante a festa. Sahira não estava apenas entediada, estava aborrecida e saudosa. Diversos jovens aproximaram-se dela durante a noite, não sem deparar-se com os olhares protetores, de sua mãe, e avaliadores, de seu pai. Ela os dispensaria a todos, se pudesse, mas a honra de sua família e a certeza de que estaria condenada a manter sua verdadeira paixão oculta, a fizeram tolerar todos os inúmeros pretendentes arranjados por seu pai.

Um garoto de não mais que doze anos encontrava-se diante dela. O rosto fino, talvez até demais, ficava escondido sob mechas lisas e grossas de um cabelo negro comprido. As roupas empoladas ficavam desalinhadas em seu corpo mirrado, que parecia não sustentar tantas rendas e babados em uma só camisa. A voz ainda fina, trazia uma sonoridade monótona e a menina já começava a cabecear quando sua atenção voltou-se para uma sombra mais escura por trás da leve cortina translúcida que esvoaçava diante da sacada.

Uma curiosidade infantil apoderou-se dela, obrigando-a ignorar cada palavra proferida por seu interlocutor. Esqueceu completamente da etiqueta e praticamente desdenhou do castigo que receberia caso seus pais percebessem o tom ácido de suas palavras para com aquele que, até o momento, era seu melhor pretendente.

- Não há novidade alguma nas viagens para as Índias, senhor Caio – ela sussurrou, interrompendo aquela narrativa que vinha sendo considerada a grande epopéia da corte de Constantinopla até então, fez o rosto pálido e macilento do jovem corar de raiva e vergonha – Muitos já foram os relatos sobre as Índias, e todos soaram infinitamente mais graciosos que o vosso. Além do mais, qual a honra em se gabar de combates que apenas vistes por trás das escotilhas de um navio? Muito heróico, meu bom senhor.

Caio levantou-se, como se houvesse sentado sobre espinhos, ferido no orgulho que construíra para si. Levantou os braços, pronto para esbravejar impropérios contra Sahira, quando ela pareceu pálida e amedrontada, pronta para desfalecer. Percebendo todos os olhares sobre si, o jovem mudou completamente de atitude, segurando cordialmente a pequena mão e tomando o leque de seu colo para abaná-la e trazer-lhe de volta à consciência.

- Senhorita Sahira, por favor, fique conosco! – ele a chamava.

- Senhor Caio... – a menina abriu lentamente os olhos, dissimulada – Pelo bom Deus, obrigada. Com vossa licença, senhor.

A menina levantou-se, sem nem ao menos olhar para o garoto, abrindo o leque de rendas e abanando-se com graça enquanto caminhava até a sacada, fingindo a necessidade de ar puro. Ela atravessou a cortina e os olhos brilhantes vasculharam o balcão, buscando a figura que lhe atraíra até ali, mas logo se conformou, com um profundo suspiro, de que Makaoto realmente não apareceria. Sahira debruçou-se no parapeito da sacada, pousando o olhar vago no horizonte, tentando divisar a silhueta dos navios contra a luz da lua nascente. Uma leve brisa carregou algumas mechas do cabelo da menina, e ela esfregou os braços enluvados com o frio repentino.

- Quanta crueldade – Sahira ouviu às suas costas, enquanto sentia o calor e o perfume de cerejeira da casaca que era ajeitada em seus ombros – O pobre garoto talvez nunca se recupere de uma recusa como esta.

- A culpa é toda vossa – ela respondeu com atrevimento, sorrindo francamente, mas sem olhar para trás – Se houvesses adentrado pela porta da frente, seria meu dever recebê-lo, senhor Hidan, e o garoto que contasse suas mentiras para outra pessoa.

- Venho prestigiá-la e recebes-me com uma acusação? – Makaoto fingiu desapontamento, testando a menina – Talvez seja melhor eu deixá-la em paz e partir, pois vejo que teus humores estão bem flutuantes esta noite.

- Não! – ela segurou a mão que ele deixara em seu ombro, virando-se aflita para o oriental – Por favor, não vá! Estive... A noite inteira esperando que aparecesses, senhor Hidan.

Makaoto sorriu satisfeito, pousando o indicador sobre os lábios maquiados de Sahira em um pedido provocante de silêncio. A garota corou, sentindo seu coração disparar intensamente com aquele toque, mas nem mesmo com todo o constrangimento ao qual era submetida, ela conseguia desviar os olhos dele.

- Eu vim por aqui – ele sussurrou apontando a sacada – porque gostaria de levá-la comigo para um passeio. Mas como tenho certeza que a senhora baronesa não aprovará que eu leve a anfitriã da festa, tive que ser um tanto furtivo. Acompanharias-me?

Sahira meneou a cabeça afirmativamente, naturalmente propensa a aceitar qualquer pedido daquele homem que tanto a fascinava. Makaoto cruzou o parapeito e segurou-se nas grades que sustentavam belos exemplares de trepadeiras, estendendo a mão para que a menina o acompanhasse. Abraçando-a com firmeza, ele desceu silenciosamente e a conduziu até a carruagem que o aguardava.

- Feliz aniversário, meu anjo – ele a congratulou quando o veículo já estava longe do palacete, adentrando uma alameda – E felizes sejam teus próximos sete, e outros sete mais.

A garota agradeceu o cumprimento, apesar de julgar desnecessário qualquer protocolo social diante de Makaoto. A simples presença do oriental já era uma gratificação soberba para seus desejos infantis. A carruagem parou e Hidan desceu, abrindo a porta dela e auxiliando-a a sair, apresentando um jardim de beleza inestimável.

- Pelo bom Deus, senhor Hidan! É simplesmente lindo!

- Imaginei que apreciarias – ele respondeu, esboçando um sorriso sincero ao perceber a empolgação de Sahira – É o meu presente para ti.

- É um passeio maravilhoso, senhor! Nunca receberia um presente tão especial como este.

- Não, Sahira. Não é o passeio que é o presente, mas o jardim. Para que possas refugiar-te quando desejares um pouco de paz.

Os olhos da menina fixaram-se quase incrédulos nos do oriental, como se aguardassem o anúncio de uma brincadeira. Mas Makaoto apenas sentou-se no gramado diante do lago, convidando-a a se aproximar. Tendo-a ao seu lado, Hidan ajeitou uma flor em seus cabelos, acariciando levemente seu rosto enquanto murmurava palavras desconhecidas para ela. Disfarçando sua curiosidade com um tom casual, ele a questionou:

- Por que desdenhastes tanto da história que o garoto Caio contou-te?

- Ainda guardo lembranças das narrativas de vossas viagens, senhor – ela respondeu, sonolenta - e o relato simplista e egocêntrico do senhor Caio começava a tingir de cinza as imagens tão vívidas que me passastes.

Ele a abraçou protetoramente, deixando-a recostar a cabeça em seu braço para descansar por alguns minutos.

- Durma, minha pequena Sahira – Hidan sussurrou enquanto iniciava uma tecelagem de Tempo – Porque tens ao meu lado, todo o tempo de que precisares para um descanso tranqüilo.

A menina adormeceu rapidamente, exausta pela noite agitada demais para os seus recém completos sete anos e também pela magia do oriental. Makaoto observou-a com seriedade, franzindo as sobrancelhas enquanto acariciava o cabelo dela.

- Pobre menina – ele disse, beijando-lhe a testa com pesar – Mas é um mal necessário. Um dia, talvez, me perdoes.

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